

Copyrights ©. Desenho de 'Moi Même' (idedumyrox) - Marcador sobre Cavalinho, Jun 1992xxx
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Fica aqui a lembrança.
Hummmmmm…
Copyrights ©. Desenho de 'Le Je, o destravado' (idedumyrox) - Grafite sobre Cavalinho, Março 1992Copyrights ©: Google Images - fonte e autor não identificados
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Copyrights ©: Monty Northrup and/or Carolyn Blankenship - Psychedelic Lights
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Natal de 1992, Viana do Castelo
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Como é conhecido de todos, a noite de 24 de Dezembro tem uma festa em cada lar e um deserto em cada rua.
Como também é conhecido, os últimos momentos do dia acabam sempre por ficar reservados para umas compritas de última hora – alguma prenda que ficou esquecida, ou para o tio estouvado que afinal sempre vem à consoada, mais umas rabanadas (fatias douradas), que das que a avó fez já só restam umas migalha no canto da boca de algum dos pequenitos, o bolo-rei que já andaram a esburacar por baixo das frutas cristalizadas… You name it!...
Claro, e depois há sempre uns sacrificados que ficam incumbidos de tais tarefas. Nesse Natal calhou-me a mim ajudar a minha prima ‘Tucha’, que sempre acabava por tratar dessas ingratas últimas tarefas. E lá fomos os dois, muito à pressa, ao centro da cidade…
Ora, tarefas muito bem divididas (que me calhou o mais fácil!), acabei por ficar um tempão à espera num dos topos da rua das lojas. Vocês sabem, aquela rua que todas as cidades têm, exclusiva a pedestres e que detém as mais ricas e coloridas iluminações de natal de toda a cidade.
Estava um frio de rachar! – e o tempo passa sempre mais lento quando se espera!…
E lá estava eu a desesperar sozinho, meio perdido naquela cidade do norte que ia deserta há já um bom bocado. Andava um tanto deprimido e a solidão daquela rua comprida parecia-me tanto maior quanto mais gargalhadas vinham cair cá baixo, vindas de algumas janelas acesas dos segundos e terceiros pisos das casas mais próximas.
E eu a pensar na família toda reunida lá em casa dos meus tios de Viana. Todos perdidos em grande festa e em disparates avulsos, pequeninos, médios e graúdos – que naquela casa, por essas alturas, não há grandes regras nem hierarquias, mas quase só alegria, amor e carinho! (Talvez que por isso mesmo tenha sempre preferido o Natal de Viana…)
Encostava-me a um poste de madeira ali posto provisoriamente, um pouco às três pancadas, para alimentar de electricidade a majestosa iluminação natalícia na rua principal. Encostava-me, desencostava-me, dava três voltas, olhava a estrada a perscrutar algum carro que surgisse na quietude, lá ao fundo. Mas nada...
Páginas tantas, rogando uma praga quase entre dentes, pontapeei o dito poste com uma violência receosamente contida, mas que ainda assim foi despeito em demasia..... E fez-se um enorme clarão, mesmo acima de mim, que pareceu iluminar a noite inteira como se de uma aparição demoníaca se tratasse, e que se fez acompanhar de um retumbante ‘craquejar’ e medonhas faíscas esvoaçantes, qual celebração de ano novo antecipada…
A noite caiu sólida e pesadamente ao longo de toda a rua principal, nesse mesmo instante, que ficou totalmente às escuras, agora verdadeiramente solitária e triste, sobejando-lhe apenas a luz de algumas janelas acesas.
Não disse uma única palavra durante todo o caminho de regresso a casa. Bem, acabara somente de apagar, de um só golpe, toda a iluminação natalícia da rua principal de Viana.
Sentado no meu lugar à mesa, no meio de um festival de doidos, decidi interromper as conversas que corriam à minha volta, incessantemente interrompidas umas nas outras, para contar aquele episódio.
Recebi umas duas gargalhadas curtas, um ‘és maaaazé maluco!’, e um ‘cala-te lá e passa mas é as batatas’! Claro, ninguém acreditara na história e passados 5 minutos já nem eu próprio me lembrava do sucedido.
Na noite de 25 – que a seguir à festa religiosa quer-se uma outra bem profana – depois de jantar, fomos os primos todos, os médios, beber um copo a um barzinho que ficava na baixa. Claro, a festa que corria naqueles três carros mais parecia o campeonato municipal de ragby da terra, mas eu fiquei muito quieto no meu canto, atento e caladinho todo o caminho, até que finalmente passámos em frente à rua das lojas…
A rua estava linda e animada, esplendorosamente iluminada em toda a sua extensão, como se nada mais se tivesse passado do que uma partida alucinada da minha imaginação. E felizmente, já ninguém se lembrava da história contada na noite anterior.
Hoje, volvidos mais de dez anos e às portas de mais um triste Natal, que não são em casa dos primos de Viana desde há muito, já não sei muito bem onde acaba a memória e começa a fantasia, mas sei que todas as histórias de Natal têm a sua ‘Moral da história’ muito própria...
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Moral da história: é mesmo muito feio esburacar o bolo-rei debaixo das frutas cristalizadas!
Trata-se de um keygen criado para gerar códigos para desbloquear a maioria dos telelés. Nokias e várias outras marcas.
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Copyrights ©: Photo de 'Al viajero' (idedumyrox) - Marrocos, Chefcouen Ago 1993
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The Past: xxx Naughty kids ruling the neighborhood, innocently.
The Present:xI wonder!
The Future:xxBad guys ruling the place?…
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xxO Cáscais
Chefchaouen era obrigatoriamente o primeiro e último poiso para los caminantes ou les voyageurs que pretendiam passar uma temporada no 'verdadeiro' Marrocos (claro, excluídos os tourists que tinham como destino locais tipicamente turísticos, como Casablanca e Agadir… absolutamente ocidentalizados e onde as Medinas já mais se pareciam com o nosso folclore: 'pra inglês ver').
Era uma vila suficientemente ocidental para que não se estranhasse muito, mas também já suficientemente Berbere para que nos sentíssemos verdadeiramente no Norte de África.
Julgo que ainda seja boa ideia cumprir este conselho, como eu religiosamente fiz naquele saudoso Verão, em 1993.
Chefchaouen era o último testemunho de 'civilização' para quem subia o Riff, uma cadeia de montanhas viradas para o mediterrâneo, que se estende como uma muralha pelo norte de Marrocos.
- 'Sarrdine, sarrdine! Patata frrita… Benfica! Benfica!'... Era o que nos diziam os homens, num sorriso desdentadamente servil, sempre que nos identificávamos como portugueses; que com as mulheres pouco se falava. Se novas e jeitosas… perigoso, até!
Um sorriso servil porque ali tudo se vendia, mesmo que não se fosse vendedor, e potencialmente tudo se comprava, mesmo que não se fosse freguês.
A tortuosa ruela que se vê na foto, descendo-se, ia desembocar numa outra de dimensões um pouco mais generosas, mas não muito. Nessa, logo mais abaixo, situava-se o 'Hotel' onde ficámos hospedados, tanto à chegada a Marrocos como à partida para Portugal, 24 dias depois.
Tratava-se de um edifício medieval, de planta quadrada, construído em torno de um claustro, também ele quadrado, e que se elevava em três pisos de arcarias e varandins de madeira, detalhadamente decorados com os característicos ornamentos geométricos, não figurativos, que caracterizam a arquitectura Árabe.
Pagava-se na altura, em época alta, uns 60 ou 80 escudos por noite por pessoa, no caso em quartos quádruplos. Claro está, não se tratava propriamente de um Hotel facilmente enquadrável em qualquer sistema ocidental de classificação, nem mesmo com ½ estrelinha…
Não havia sala de pequeno-almoço, nem o dito, a sala de estar era no referido pátio e o WC resumia-se a dois cubículos instalados no segundo piso. Um para o duche e outro para o restante.
Todavia, à noite éramos brindados com uma vista fenomenal sobre uma boa parte da vila, que se estendia a Su-sueste, o recorte do Riff elevado a Noroeste, e os ‘cânticos religiosos’ da meia-noite que languidamente jorravam dos altifalantes da Mesquita, já na altura gravados em cassete.
E de manhãzinha, como resultado dos devaneios etnográficos da noite anterior descontraidamente partilhados por todos os hóspedes da casa, ou quase todos, bastava colocar uma mortalha junto ao bordo de uma das mesas e passar com uma mão sobre o tampo da mesma, recolhendo as migalhas. Depois enrolava-se o charrito recostadamente espreguiçado nos almofadões dos sofás de pedra... Mas que relaxante forma de começar o dia! Nem era necessário recorrer ao ‘dealer’ do grupo...
Foi nessa mesma rua, mais abaixo, que conheci o 'Cáscais'. Um sorridente e ameno marroquino de tez morena, estrutura sólida e um tanto bem nutridinho a mais, na altura lá pelos seus quase trinta.
Era conhecido por Cáscais porque lá tinha estado anos antes, numa curta ida a Lisboa e por motivos que desconheço, mas que não serão muito difíceis de imaginar…
Conhecemo-lo à porta do seu pequeno bazar, com não mais de 9m2, quando nos atraiu para os seus domínios desde os limites da lojinha logo em frente. Foi um momento um tanto embaraçante, pois que o seu rival, talvez mesmo arqui-rival, não ficou nada contente e desatou numa ‘algaraviada’ de que só se entendiam as más intenções.
Mas Cáscais não se deixou intimidar, sereno, e ofereceu-nos um daqueles inesquecíveis chás tipicamente árabes. Um copo atulhado de hortelã fresca bem acamada sobre uma quantidade indescritível de açúcar, e depois a água, a escaldar e servida na hora.
Na verdade, o verdadeiro negócio deste pacato indivíduo não era vender bugigangas no seu muito arranjadinho bazar, como viemos mais tarde a constatar...
Cáscais era um produtor de haxixe. Na época própria, subia à montanha e comprava uma cultura completa de cânhamo. Depois, instalava-se num casinhoto com um ajudante, lá em cima no Riff, e durante uma semana extraía o haxixe das plantas, preparando então o tão desejado ‘fumante’, cuja produção era legal entre nacionais, muito embora o consumo não o fosse.
Mais tarde, para nos prepararmos para na nossa incursão ao interior marroquino, fui incumbido de regressar ao bazar do Cáscais e fazer o negócio que os meus colegas de viagem tanto almejavam.
Na altura, muito embora seja daqueles indivíduos que dizem poder vir a deixar de fumar tabaco, mas cahrritos nunca!, já prticamente não o fazia há mais de uma década. Era mais o ladrar que o morder, acompanhado de uma certa nostalgia dos tempos de adolescência.
Lá fui. Cáscais estava a fechar a sua lojita e, depois de o fazer, convidou-me a subir à sua casa, que ficava no piso de cima. Depois de trazer o chá, sentámo-nos na sala de estar conversando sobre tudo e nada, enquanto ele meticulosamente enrolava uma coisa que quase me deixou assustado. Passado um pouco já riamos disparatadamente do tudo e do nada de que falávamos.
Aprendi ali, sentado no chão, imensos detalhes sobre como se planta, como se colhe e se produz um bom haxixe, bem como sobre das suas diferentes classificações. Aprendi também que, para produtores como este, mais do que um simples negócio, trata-se de um modo de vida tão válido e respeitável como qualquer outro… discutivelmente.
E assim se passou um bocado descontraído, antes que Cáscais se levantasse e se perdesse nos cortinados vermelhos de uma das portas.
Voltou pouco depois, com uma grande caixa de madeira decorada com delicados entalhes geométricos, feitos com madeiras exóticas, que pousou no chão, bem à minha frente.
Brilharam-se-lhe os olhos num leve sorriso, pejado do orgulho merecido por quem faz bem o que sabe fazer (e que bem que sabia!) quando abriu a caixa… devagar... voltada a mim.
Retrocedi dez anos num instante e sem me aperceber, abismado com a visão daquele ‘tesouro’ que ali se me oferecia… Regressei por momentos ao auge da minha quase marginal adolescência, naquele abafado fim de tarde de Agosto, em Chefchaouen.
- Asalaamu Alaikum! Disse-me à partida.
Levantei-lhe a palma branca da mão esquerda e sorri, sabendo que não me dirigia a um dos ‘bad guys ruling the place’.
Voltei a vê-lo 24 dias depois…
Mais de dez anos passados, guardo ainda uma curiosidade imensa de saber do Cáscais... e dos meninos da fotografia.
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